Psicologia da Libertação
uma esperança para qem resiste...

Raquel GUZZO

 

   
 

Nos dias de hoje, há aqueles que se percebem impotentes e desanimados diante das evidências de que este mundo assumiu valores que destroem a vida, que as relações entre as pessoas estão mercantilizadas, desumanizadas, inseguras e que, por mais que nos entreguemos à projetos com promessas de liberdade, sucesso e felicidade, estaremos, sem perceber, cada vez mais longes de nos sentirmos em paz e realizados, pois estas promessas são, de fato, um canto de sereia que pertence à ideologia do novo império –aquele que seduz para destruir.
Há aqueles que desejam um outro mundo e que buscam, com esperança, lugares, pessoas, idéias que sejam capazes de compartilhar denúncias deste caminho letal, que ilude e destrói, que submete as pessoas à opressão e tirania disfarçadas em discursos modernos e naturalizados. Este império da hipocrisia, da exploração humana, das injustiças, mentiras e desigualdades, da ambição e do consumismo, da lógica economicista e utilitarista, onde o “ter “ aparece como condição de ser, pode ser substituído por um novo modo de viver, onde as pessoas estejam livres e conscientes de seu poder na construção da história, sem submissão, alienação e fatalismo.
A vida consiste em uma sucessão de ações e experiências de sentido e coerência que se estabelecem de acordo com os valores que norteiam as ações no mundo, para as quais devemos nos voltar conscientes e ativos, reconhecendo o que cada elemento do cotidiano tem e traz para seu desenvolvimento. A situação social do mundo está ameaçando o futuro de toda a vida. Isto pode parecer muito óbvio, mas é preciso que seja assim? Esta pergunta nos leva a refletir, que as pessoas, de maneira perigosa, iludem-se ignorando aquilo que está em seu caminho como se fosse obvio e, por isso, natural. É preciso ver dentro e através da realidade.
O entendimento dos acontecimentos sociais traz em si uma dificuldade –a nossa incapacidade em perceber, de fato, o que está acontecendo à nossa volta. Nossa capacidade de entender a história é limitada e, muitas vezes fora do nosso alcance, por isso a necessidade de relações sociais favorecedoras de um desenvolvimento consciente e livre de todos e de uma mediação entre os diferentes contextos. Pode-se pensar que, para se transformar o mundo, é preciso mais do que um trabalho de mudança nos níveis extremos destes sistemas (indivíduos ou estado), as mudanças mais significativas tem sido as súbitas, radicais, estruturais e qualitativas que surgem em níveis intermediários, ou seja em espaços do coletivo, como por exemplo, as instituições e os movimentos sociais que alteram estruturalmente as relações sociais, a vida cotidiana e portanto os indivíduos.
A Psicologia passa a ter, então, um lugar privilegiado na compreensão e no acompanhamento destas mudanças. Adquire uma responsabilidade de se constituir de forma crítica por, exatamente, propiciar que as pessoas possam ter clareza da história. Para Martín-Baró, trata-se de dispor o conhecimento psicológico a serviço da construção de uma sociedade, onde o bem estar de uns poucos não se assente sobre o mal estar, a desgraça e a tragédia na vida dos demais, onde a realização de uns não requeira a negação dos outros, onde o interesse de poucos não exija a desumanização de todos.
A liberdade é valor a ser buscado pela práxis da libertação, que procura o sentido da vida sem medo, sem brutalidade, sem exploração de um homem sobre o outro -libertação da consciência e da sensibilidade, como força para a transformação.
Nesta perspectiva, Ignacio Martín-Baró, jesuíta e psicólogo social, nos contempla com sua proposta crítica de Psicologia Social –a Psicologia da Libertação, especialmente voltada à vida das maiorias pobres e oprimidas– um compromisso ético e político com a existência de um coletivo. Esta visão comprometida com as maiorias e disseminada no bojo de um movimento de libertação da América Latina, culminou com a morte de seus pensadores de forma violenta. Na madrugada de 16 de novembro de 1989, homens vestidos com uniformes militares invadiram a residência dos jesuítas no campus da Universidade Jose Simeón Cañas (UCA) em El Salvador e exterminaram seis professores, dentre eles, Ignácio Ellacuria e Martín-Baró, além de duas mulheres que trabalhavam na casa. Aos brados de Isso é uma injustiça, Martin-Baró faz ecoar por sua morte a responsabilidade ético-política que temos todos, os que convivemos com as desigualdades e injustiças sociais. Ao lado de outros que juntos procuravam encontrar um caminho para a libertação do povo latino–americano, este psicólogo deixou para nós uma direção de vida... de trabalho... e de compromissos.
A construção de um homem novo para um mundo novo, inspirada pelas idéias da Psicologia da Libertação, passa necessariamente, antes de tudo pela sua própria reconstrução teórica e prática, tendo como referencia a vida do próprio povo, de seu sofrimento, suas aspirações, seus dilemas. O esforço em desenvolver uma psicologia para a América Latina, significa não apenas uma tarefa teórica, mas, sobretudo, prática -um serviço que atenda às necessidades da maioria da população. Os reais problemas devem se constituir como objeto de estudo e de trabalho dos psicólogos latino-americanos. Neste sentido a miséria, a opressão, a dependência, a marginalização, a existência desumana são razões para o trabalho do psicólogo em busca deste novo mundo.
As pessoas precisam ser agentes de suas próprias existências, libertando-se das estruturas sociais que continuamente as oprimem. Esta é a preocupação e o esforço da Psicologia da Libertação –um compromisso ético e político com as pessoas que sofrem o impacto de condições sociais e econômicas injustas sobre suas vidas. Para uma Psicologia da Libertação é necessário que possamos nos envolver em uma atividade de transformação da realidade, que nos permita uma crítica do que nos têm sustentado, enquanto conhecimento e o que nos orientará para as respostas que buscamos. Somente pela participação ativa conseguiremos uma ruptura com esta vida –da dominação para a solidariedade, da submissão para a emancipação, das prisões e amarras que nos impedem de estar no mundo transformando-o. Para se desnudar esta nova forma de imperialismo que penetra no cotidiano de cada vida é preciso uma força libertadora que vem de dentro e de todos, que se manifesta pelo repúdio e pelo clamor dos dominados.
A Psicologia da Libertação tem urgências... pois ela surge em meio à necessidade de dar respostas para uma realidade destroçada pela dominação e violência, cotidiano de vida para a América Latina e outros países pouco desenvolvidos. Subserviente e escrava de teorias e interesses dos Estados Unidos e Europa, deve se libertar por primeiro da realidade social de outros países buscando um novo objeto de estudo, uma nova epistemologia e uma nova praxis, tornando-se uma ciência e uma profissão relevante para sua realidade social.
Ao recobrar a memória histórica das maiorias, contribui para impedir o solo fértil do fatalismo e da alienação que permitem a exploração e o colonialismo. Isso se alcança pela desideologização da vida cotidiana, ou seja, favorecer a participação crítica na vida, especialmente daqueles que são vítimas da opressão e que sobrevivem... por fim, descortinar o potencial, a semente forte que pode nascer em cada um e no coletivo de uma comunidade... a esperança para quem resiste.
Buscando disseminar e manter vivas as idéias da Psicologia da Libertação foram organizados seis Congressos Internacionais de Psicologia Social da Libertação. Em novembro de 2005, Costa Rica será a sede do VII Congresso . Para maiores detalhes, entrar em contato com Professor Ignácio Dobles, da Universidad de Costa Rica, pelo email idobles@cariari.ucr.ac.cr

 

   
 
Raquel Guzzo
Campinas, Brasil
rguzzo@mpc.com.br


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