Sugestões de leitura latino-americana

 

 

Álvarez, Julia, En el tiempo de las mariposas, Alfaguara, Madrid 2001, 428 pp.

Sua autora, dominicana, nos aproxima à vida e compromisso das quatro irmãs Mirabal, fundadoras do movimento 14 de junho, gérmen do movimento opositor que terminou com a ditadura do Rafael Leónidas Trujillo em Republica Dominicana. O 25 de novembro de 1960 acharam- se próximo dum penhasco na costa, os corpos sem vida de três jovens. Segundo a versão oficial, foi um acidente, e nenhum jornal publicou a verdade. Esta deslumbrante e comovente novela nos fala de um episódio dramático da história latino-americana que no podemos ignorar.

 

Beck, Ulrich, La sociedad del riesgo global, Siglo XXI, Madrid 2002, 274 pp.

Este sociólogo alemão vê nos mercados globais uma “correlação entre a distribuição dos bens e a distribuição dos males”, e uma “irresponsabilidade organizada”, na qual uma primeira onda de desregulação nacional é seguida por outra de regulação transnacional. Ao destruir sua ecologia, os pobres podem “acabar destruindo-se a si mesmos, com efeitos colaterais para os ricos”. O risco global, segundo esta visão, não é algo que afete unicamente o Ocidente, pois neste novo contexto “as sociedades não ocidentais compartem com Ocidente não só o mesmo espaço e tempo, senão os mesmo desafios básicos da chamada Segunda modernidade”. Nesta, a diferença da primeira, a sociedade há de responder simultaneamente ao menos à cinco desafios: a globalização, a indi­vidualização, a revolução dos gêneros, o subemprego e os riscos globais, em cujo centro se situam os ecológicos. Beck afirma que muitas regiões do chamado Terceiro Mundo “mostram hoje à Europa a imagem do seu próprio futuro”, antes que ao avesso.

 

Taibo, Carlos, Cien preguntas sobre el nuevo desoden, Punto de lectura, Madrid 2002, 352 pp.

Com esta obra, o autor –professor de Ciências Políticas- examina a globalização neoliberal desde uma perspectiva critica sem obviar nenhuma das vertentes do processo; seja a degradação do meio ambiente, o desvanecimento do Estado, o imperialismo cultural, os movimentos contestatórios, ou o papel das instituições internacionais. A cada passo se oferecem dados que obrigam a refletir: 46 milhões de pessoas vivem por baixo da linha de pobreza em EE.UU; enquanto em Ocidente se fala da revolução da Internet, dois terços da população mundial, nem se quer tem feito uma ligação por telefone.

 

Warschawski, Michel, Israel-Palestina: la alternativa de la convivencia binacional, Libros de La Catarata, Madrid, 2002, 126 pp.

Michel Warschawski, intelectual israelense, filho do grande rabino Meïr Warschawski –uma das figuras mais destacadas da resistência judaica contra o nazismo-, é um ativista em favor da paz israelo-palestinense e membro fundador do Centro Alternativo de Informação de Jerusalém, um dos principais focos de solidariedade com a causa palestina no interior de Israel. A lógica do governo israelita aposta decididamente pela guerra e a formalização de um novo apartheid para a população palestina. No entanto, em ambas comunidades nascem também projetos de paz e convivência. O livro é um exemplo disto, apresenta uma das mais convincentes apostas em favor da paz e da igualdade de direitos numa perspectiva plurinacional.

 

Marcelo Barros, O Espírito vem pelas Águas. A crise atual da Água e os diversos caminhos espirituais, São Paulo 2002, Paulus, CEBI e Rede.

“Se hoje Jesus voltasse em Canaã, lhe pediríamos que transformasse o vinho em água” (Wadih Awawdé, atual alcalde da cidade de Canaã de Galileia). Hoje, 168 milhões de pessoas não têm água. Até o ano 2025, segundo a ONU, este problema afetará a metade da humanidade. Enquanto isso, conforme as estatísticas oficiais, em todo o mundo, o 32% das fronteiras são rios, lagos e mares. Na América Latina chegam a 52% as fronteiras entre os paises que coincidem com rios e lagos. A água virou mercadoria e esta sendo privatizada. A ONU adverte que muitos dos atuais con­flitos entre os povos são pelo controle das fontes, os rios e as reservas hídricas.

“Escrevi esta reflexão sobre como a partir da Bíblia e de uma espiri­tua­lidade ecumênica, podemos res­pon­sabilizar-nos mais profundamente nesta questão da água que, cada vez mais, afeta povos inteiros e pessoas de boa vontade em toda a terra”.

 

Mitchel, Thomas, Allá confluenza dei due mari. Un cristiano incontra L´Islam. Icone edizioni, 2001, collana Strumenti di pace, 112 pp.

Thomas Mitchel é um jesuíta norte-americano na Indonésia, o país com maior presença muçulmana do mundo. Tem trabalhado por mais de trinta anos em paises muçulmanos, ensinando também em diversas Universidades islâmicas. Atualmente é responsável pela Secretaria para o diálogo inter-religioso na Cúria Geral da Companhia de Jesus, depois de haver exercido um cargo semelhante no Vaticano.

O livro esta escrito com uma grande competência, mas também numa linguagem clara e simples, como acostuma a cultura anglo-saxônica. Pode aportar uma contribuição notável à necessidade de conhecimento do verdadeiro Islã que se tem manifestado depois dos ataques do 11 de setembro.

 

Tarif Khalidi, O Jesus Muçulmano, Imago, 2001, 256 pp.

Trata-se de uma coleção de pro­vérbios e histórias referentes à Jesus na tradição islâmica-árabe. Uma viajem através do tempo e das men­talidades. É como se num abrir e fechar os olhos pudéssemos adquirir uma visão não ocidental e conse­guíssemos ver ao Jesus evangélico, tal como foi observado (e inter­pre­tado, até mal interpretado) pelos seguidores de Maomé.

O contexto cultural e histórico do que podemos chamar “evangelho muçulmano” não é nada simples, o que aconselha humildade na hora de conhecerem-se os cristãos e os muçulmanos.

É claro que o Jesus muçulmano tem mais de muçulmano que de judeu, o que relativiza muito essa tradição não cristã de um Jesus que não aparece como redentor ou como salvador, senão somente como um profeta de Deus. Todavia, é su­ma­mente sugerente degustar a devoção com que Jesus é lembrado por um povo que, mesmo não o reveren­cian­do como “Filho Unigênito do Pai”, tem sabido admirá-lo com ternura.

E não deixa de ser instrutivo para nós, o modo como o Islã tem adotado, como um dos seus heróis religiosos, uma figura “estrangeira” que poderia ter ignorado ou caluniado. Verdadeira lição de compreensão inter-religiosa.

 

Smith, Huston, Las religiones del mundo, Kairós, Barcelona 2000, 402 pp.

Estamos perante a obra mais importante que –junto com a Mircea Elíade- se tem escrito sobre a his­tó­ria das religiões. Esta impressão corresponde à edição renovada e ampliada pelo autor em 1991. O livro está escrito num tom informal, po­rém não menos sério. A causa é que provêm de um programa que realizou para a televisão e, por isso se es­me­rou em ser o mais com­pre­en­sível para um público amplo. A lei­tu­ra da exposição do cristianismo e o ca­to­li­cismo é cuidadosa. Smith é antes de tudo, um cientifico historiador do pensamento religioso e procura não se deixar levar pelas suas reações pessoais. É muito interessante o fato de dedicar um capitulo sobre as religiões tribais, que as deixamos esquecidas como algo que só per­ten­ciam à tempos pré-históricos. Uma obra imprescindível para saber com seriedade e imparcialidade das re­li­giões do mundo.

 

CIMI, Outros 500. Construindo uma nova história, Editora Salesiana, São Paulo 2001, 256 pp.

Este lançamento do CIMI é equi­valente àquele outro livro que fez época quase 20 anos atrás: “O índio, aquele que deve morrer”. Trata-se de uma nova versão da história da con­quista pelos brancos. Denuncia a política genocida do governo bra­sileiro das ultimas décadas e apre­senta a luta dos povos indígenas, sobretudo a dos “povos ressur­gidos”.

Esta dividido em três partes: “500 anos de violência”, sobre a violência histórica; “Construindo outros 500”, sobre os caminhos do futuro; e o “Memorial das lutas indígenas”, com lideranças, heróis e povos extinguidos, ademais é um apêndice com informações sobre o CIMI e uma extensa bibliografia.

 

Sobrino, Jon, Terremoto, trrorismo, barbárie y utopía, El Salvador, Nueva York, Afganistán, Trotta, Madrid 2002, 230 pp.

Sobrino, escreve esta obra “Para ajudar a pensar sobretudo aos que vivem no mundo da abundância, e animar todos à compaixão e à Solidariedade. Terremotos, terrorismo e barbárie são símbolos, e um símbolo convida a pensar. Terremotos, as torres de Nova York, a barbárie de Afganistão, a pandemia da Aidis, a morte silenciosa na África negra, dão o que pensar e movem a ter que questionar-nos a nós mesmos. Esse pensar não tem nada de diletante, senão que exige conversão pessoal e mudança estrutural, pode oferecer esperança e utopia. Mas antes de tudo, interpela e faz perguntas que não podem ser desatendidas”. O autor também denuncia a hipocrisia dos paises ricos, quando proclamam mediante o bombardeio ao Afeganistão seu direito à seguridade e a liberdade como princípios máximos, alheios assim à realidade que se vivencia fora do seu circulo de bem-estar.

 

George, Susan, Informe Lugano, Icaira-Intermón-Oxfam, Barcelona 2001, mais de 5 ediciones. Também em francês e inglês.

Brilhante crítica às políticas neoliberais que estão encaminhando o mundo ao seucolapso. A autora é presidenta do Observatório da Mun­dialização e vice-presidenta da ATTAC