Povos indígenas e globalização
Leonardo Boff
A campanha da fraternidade da
CNBB deste ano é sobre “Fraternidade e os Povos
Indígenas”. Busca-se suscitar solidariedade para com eles e
favorecer o aprendizado de sua sabedoria ancestral. Hoje, segundo dados da ONU,
existem cerca de trezentos milhões de indígenas no mundo. Nesse
processo de globalização por nós já abordado, qual
a contribuição que eles trazem? Elenquemos apenas alguns pontos
relevantes.
Sabedoria ancestral. Conhecendo-se um pouco as diversas culturas
indígenas, identificamos nelas profunda capacidade de
observação da natureza com suas forças e da vida com suas vissicitudes. A sabedoria deles se
teceu através da sintonia
fina com o universo e da escuta
atenta da Terra. Sabem melhor do que nós, casar céu e terra,
integrar vida e morte, compatibilizar trabalho e diversão,
confraternizar ser humano com a
natureza. Nesse sentido eles são altamente civilizados embora
sejam tecnologicamente primitivos.
Intuitivamente, atinaram com a vocação fundamental de nossa efêmera passagem por esse mundo que é captar a majestade do universo, saborear a beleza da Terra e tirar do anonimato a Fonte originária de todo ser, chamando-a por mil nomes Palop, Tupã, Ñmandu e outros. Tudo existe para brilhar. E o ser humano existe para dançar e festejar esse brilho.
Essa sabedoria precisa ser resgatada por
nossa cultura dominante. Sem ela dificilmente pômos limites ao poder que
poderá dizimar o nosso ridente Planeta vivo.
Integração sinfônica
com a natureza. O
índio se sente parte da natureza e não um estranho dentro dela.
Por isso, em seus mitos, seres humanos e outros seres vivos con-vivem e casam
entre si. Intuiram o que sabemos pela ciência empírica que todos
formamos uma cadeia única e sagrada de vida. Eles são
exímios ecologistas. A Amazônia, por exemplo, não é
terra intocável. Em milhares de anos, as dezenas de nações
indígenas que ai vivem, interagiram sabiamente com ela. Quase 12% de
toda floresta amazônica de terra firme foi manejada pelos índios,
promovendo “ilhas de recursos”, desenvolvendo espécies
vegetais úteis ou bosques com alta densidade de castanheiras e frutas de
toda espécie. Elas foram plantadas e cuidadas para si e para aqueles
que, por ventura, por ai passassem.
Os Yanomami sabem aproveitar 78%
das espécies de árvores de seus territórios, tendo-se em
conta a imensa biodiversidade da região, na ordem 1200 espécies
por área do tamanho de um campo de futebol.
Para eles a Terra é Mãe do
índio. Ela é viva e por isso produz todo tipo de seres vivos.
Deve ser tratada com reverência e respeito que se deve às
mães. Nunca se há de abater animais, peixes ou árvores por
puro gosto, mas somente para atender necessidades humanas. Mesmo assim, quando
se derrubam árvores ou se fazem caçadas e pescarias maiores,
organizam-se ritos de desculpa para não violar a aliança de
amizade entre todos os seres.
Essa relação sinfônica
com a comunidade de vida é imprescindível para garantirmos o
futuro comum da própria vida e o da espécie humana.
Atitude de veneração e de
respeito. Para os
povos indígenas, bem como para muitos contemporâneos,
tudo é vivo e tudo vem carregado de mensagens que importa decifrar. A
árvore não é apenas uma árvore. Ela tem
braços que são seus ramos, tem mil linguas que são suas folhas,
une a Terra com o Céu pelas raizes e pela copa. Eles conseguem, naturalmente, captar o fio que
liga e re-liga todas as coisas entre si e com Deus. Quando dançam e tomam as beveragens
rituais fazem uma experiência de encontro com Deus e com o mundo dos
anciãos e dos sábios que estão vivos no outro lado da
vida. Para eles, o invisível é parte do visível. Essa
lição importa aprender deles.
A liberdade, a essência da vida
indígena. Nos dias atuais a falta de liberdade nos atormenta. A
complexidade da vida, a sofisticação das relações
sociais geram sentimento de prisão e de angústia. Os povos
indígenas nos dão o testemunho de uma incomensurável
liberdade. Baste-nos o depoimento dos grandes indigenistas, os irmãos
Orlando e Cláudio Villas Boas: “O índio é totalmente
livre, sem precisar de dar satisfação de seus atos a quem quer
que seja… Se uma pessoa der um grito no centro de São Paulo, uma
rádio-patrulha poderá levá-lo preso. Se um índio der
um tremendo berro no meio da aldeia, ninguém olhará para ele, nem
irá perguntar por que ele gritou. O índio é um homem
livre”.
A autoridade, o poder como generosidade. A liberdade vivida pelos índios
confere marca singular
à autoridade de seus
caciques. Estes nunca têm poder de mando sobre os demais. Sua função
é de animação e de articulação das coisas
comuns, sempre respeitando o dom supremo da liberdade individual.
Especialmente, entre os Guarani se vive esse alto sentido da autoridade, cujo
atributo essencial é a generosidade. O cacique deve dar tudo o que lhe
pedem e não deve guardar nada para si. Em algumas tabas se pode
reconhecer o chefe na pessoa de quem traz ornamentos mais pobres, pois, o resto foi tudo doado.Nós
ocidentais definimos o poder sob sua forma autoritária:“a
capacidade de conseguir com que o
outro faça aquilo que eu quero”. Em razão desta
concepção, as sociedades são dilaceradas permanentemente
por conflitos de autoridade.Imaginemos o seguinte cenário: caso o
cristianismo, se tivesse encarnado na cultura política guarani e
não naquela greco-romana, teríamos então padres pobres,
bispos miseráveis e o papa um verdadeiro mendigo. Mas sua marca
registrada seria a generosidade e o serviço humilde a todos.
Então, sim, poderiam ser testemunhas d’Aquele que
disse:”estou entre vós como quem serve”. Os indígenas
teriam captado essa mensagem como conatural à sua cultura e, quem sabe, livremente aderido
à fé cristã.
Como se depreende, em tantas coisas, os
indígenas podem ser nossos mestres e nossos doutores, como se dizia dos
pobres na Igreja dos primórdios.