Primeiro prêmio do Concurso de Conto Curto Latino-americano
convocado pela Agenda Latinoamericana-Mundial'2002
na sua VIII edición.
Veja a nova convocatória que traz aa Agenda'2003 (IX edición).

 

«O achado»

 

 

Autor: Jerônimo Pereira Júnior
Título do Conto: O ACHADO
Idioma: Português
Formato do arquivo: MS-Word 2000
Endereço:Av.Com.Francisco Avelino Maia, 3241 1 andar L3
Passos - MG - Brasil
37900001
Telefone: 0..35 3521 9040
correio-e: cacambo@bol.com.br

 

 

E, resoluta, estacou diante do corpo procumbido e esmolambado que prosternava ao pé do barranco, a jumenta, que, com muita lassidão tirava as patas do lugar, ziguezagueando-se a custo entre as caatingas. Nos quartos, trazia um jacá em forma de alforje que não pesava, e no lombo em pêlo, porque nem um xairel tinha para as costas da pobre besta asinina, o seu dono: um cangalho de velho, entranhado em decrepitude tal que, talvez, não tenha cinqüenta anos inteirados. O velho viajava confortável, dormitando de babar, emborcado, repoltreado ao sol, afavelmente embalado pelo aprazível molejo da viagem, fiando-se cegamente no senso de direção do quadrúpede que mais do que ele sabia o caminho.
__ Aperreio da moléstia. Que vontade de parir um neguinho pela orelha toda vez quisso acontece. Impacou traveis! Humm... Hum-hum. Diacho. - rezingou entre a baba, acordando leso, de mau humor, ao sentir nos sonhos de seu raso cochilo que sua condução, que de barlavento levava-o sem local e data, parara. Porém, quando viu o motivo, ficou bem acordado: - Ó, xente! Esse um mataram bem matado. Quema chão aí Jiruminha que o matador deve ainda de tá perto. - enquanto os urubus, no alto cirandavam, ela, a jumenta, não aluía, por mais que lhe açulasse chamando na espora sua barriga. - Vãssimbora disgrama, queu não vou bulir com esse um. - porém não conseguiu por nada demover a jumenta de sua decisão de ficar ali estática, e tanto ela insistiu fortemente convicta nesta opinião, que ele concluiu que ela queria alguma coisa dizer. Conformado com o fato de que ela é muito mais sabida e escolada do que ele, e sempre dava a última palavra nas decisões que lhes diziam respeito, apeou para investigar de perto aquele morto, e muito espantado constatou que, embora manifestasse aparência de um morto muito bem matado, estava: - Vivo! Cumádi! Que milagre dopadrofioispirituidussantotamém, credenvíxi! Humm... Hum-hum. - rápido, chafurdou no fundo do jacá e deu com a garrafa, parte preciosa da módica compra que fizera no município. Verteu a aguardente na boca do moribundo a ponto de sobejar pelo queixo, engasgou, tossiu, mas não largou o coma profundo. Depressa, o decrépito almocreve instalou-o atravessado sobre a jumenta, decidido em não deixá-lo ali ao refestelo dos carcarás. - Quema chão, Jiruminha.
E assim, morto quase vivo, aquele seu achado fora do comum continuou, pelos dias que se sucederam, determinado em indissolvível coma. Era conservado vivo pelo matetê de farinha que o velho agora, um pouco evitava da própria boca, fazendo ainda mais jejum do que no diário. Calado, manteve-o escondido em cauto segredo em sua tão erma biboca, porém o transe seguia firme enleado à ardência da febre. Sem mais recursos pois, buscou longe, a caatingas dali, de última valia, uma velha catimbozeira que atendeu pronta ao chamado de socorro, gorgolou umas rezas sobre as feridas; e, na saída, sem parar de mussitar sozinha, bateu três vezes o gume de uma faca na travessa do portal da cabana.
__ Ó xente! Quê isso seu moço, que tunda medonha te lascaram! Que perrenguesa, que petição de miséria é essa? Tava todo trincado tal quale assombração. Então quer dizer que o senhor não é de nenhuma dessa famílias dos Benvindos e Pirocas que estão se matando que é uma táli e quáli coisa medonha, não? Ou é? – exclamou cheio de interrogações no dia e hora em que o moço abriu um olho.
__ Nubarai... – aquela voz de um grave agudo desafinado, assim de inesperado supetão, reverberando nas paredes sombrias, assustou-o, ao mesmo tempo que volveu sua atenção à direção daquela aparição inusitada, o que o espavoreceu mais ainda, vendo-se de subitâneo perante a presença daquela estúrdia feição de cabelo sarará de puro vento em redemoinho, presumiu-se diante de uma bruxa, e das feias, com barba de piaçaba. - Sou não. Estão se matando por quê?
__ Rapaz, porque eu não sei nem informar o senhor não. Começou que um premero matou outro da outra família, e a família do morto vingou, aí a outra vingou tamém, sabe cumé?, daí envante o que tem deles que morre por essas catingas, é múnthio, pra todo canto. Quando os parentes descobre que morreu um, vão lá e derrubam um da banda da outra família também. Tem muito cabra macho. Sei que enquanto tiver gente pra morrer, morre, porque eu sei que morre mesmo. Já morreu muito, morreu muita gente matada aqui.
__ E isso não pára? Depois que mata, ninguém arrepende?
__ Macho não arrepende.
__ E quando o senhor me achou, pensou que eu era outra vítima dessa guerra?
__ Oxente se não, na hora! Te dei por morto mais bem matado que já vi, medonho, nem ia pegar, foi a Jeruminha que esbarrou, viu e insistiu que num tava morto, ainda, só quase. Mesmo assim, inda quando te deitei nessas taquaras que tutá, dei por certo que tu não amanhecia vivo! Mas escapô.
__ Quem é Jeruminha? Sua mulher?
__ Ôxi!... É minha jumenta, num sábi? Né minha mulé não, isso é inventação asneirenta mentirosa das gente bobagenta e à toa de língua que não cabe queta na boca, num acredite não nessa mulequeira que eles fala. Foi ela que te achou, ouviu?E, num belo dia de sol, viu o velho brigando com um enxadão, tentando cavar um buraco mais adiante. Coxeando, tentou aproximar e foi logo notificado:
__ Achei uma toca de tiú. Tô cavucano em derredor, quem sabe tem um aí, aí vai ter mistura hoje no almoço. - De repente, quando a terra cedeu, ouviram o chiado forte do bicho acuado lá no fundo. - Ói, ói, tá aperriado! Soprou nervoso adebaixo dessa pedra, vigia só o que ele tá querendo, não pode escapar, dê cá esse podão ligeiro! Oa, Oa, se aquéti, medonho! – gemendo um “ai ai ai num dô conta” mancou rápido e fez chegar o podão gasto cego sem corte à mão do velho que apenas trocou mercadoria: tomou o podão, e ágil, colocou o rabo do lagarto na mão do rapaz, que sem tempo para pensar ou reagir, estarrecido, apenas ouviu aquela tão inconcebível ordem, se fosse há um ano, mas pouca coisa era ali para o velho no calor da luta: - Segura aqui que eu dirriço o podão nele! - denodado, não deixou a caça fugir, acertou-lhe um corte no pescoço e pelo rabo sugou o réptil do buraco, erguendo-o para exibir ao sol, triunfal, muito orgulhoso. - Víxi nossa! Esse é grandão demais! É o mais bitelo que já peguei, vai dar pra levar um pedaço pra dona Terta dar prus meninos. E óia o coro! Óia o tamãi, ispia, vai dar pra trocar por muita comida no município! - o almoço seria lauto banquete, especial. Cozinhou uma panelada de macaxeira com nacos de carne. E com muito apetite e água na boca, o doente colocou os pedaços do inaudito acepipe em sua cabaça. - Vai ter nojo de comer essa carne não, vai? Porque o povo das cidades importantes né, das veis, que nem ocê de São Paulo, tem lá outras comidas finas, arroz, feijão... Carne de vaca! Nóis? Humm... Hum-hum... Quem dera, no comum, aqui se aproveita qualquer gambá, preá... Vamos levar o resto para os meninos da Terta, fica uma légua e meia aí pra baixo, muntado na jumenta cê güenta. Bão cê vim pra vê como esse povo vévi.
Devia ser meio-dia quando se aproximaram da cabana de Terta, o cachorro descadeirado latiu rouco desnutrido, mas logo desistiu de marchar ao sol, faltou-lhe aminoácidos, voltou conformado em espojar com prazer rente à parede, à sombra, onde estavam sentadas no chão três criancinhas em farrapos de calça curta; levavam à boca colheres maiores do que suas bocas, no colo equilibravam vasilhas que continham o almoço. O barraco era de barro açamoucado num esqueleto de bambu já todo à mostra; no mais, era puro e somente barbeiro e escorpião à vontade. Terta apareceu à porta, de lenço na cabeça, com outro menino ainda menor, peladamente encaixado em sua cintura; detrás de sua saia foram saindo outros, quase não terminava mais de surgir meninos e meninas, de vários tamanhos e modelos, nus, e seminus. Muito alegre ela caminhou ao encontro das visitas, com sua prole atrás como os pintinhos que seguem a galinha mãe, e por último, apareceu do interior da choupana, um magro, de bermuda e chinelo havaiana, já era maior que um homem, até barba lhe nascia, imóvel e calado, ateve-se escorado no umbral.
__ Oxente cumádi! Esses meninos tão comendo só cacto? Tadim. Que coisa medonha.
__ Só cumpádi, só cacto. – ao ouvir isto, o rapaz não creu sem ver, desceu às pressas da jumenta, e mancou até perto dos meninos, olhou bem dentro das bacinetas que equilibravam aqueles três sobre suas perninhas. Só viu uns pedacinhos escuros de cactos cozidos, nem caldo ou farinha havia, só cacto no prato, ficou em silêncio profundo, atropelado por um turbilhão de lembranças de toda comida, riqueza, e desperdício, que está em sua casa, nas dos amigos de seu pai, nas de seus amigos, de homens que conhece e que estão no governo, neste mesmo instante, em que estava ali, diante de crianças que também são brasileiros, e comendo só cacto, com uma colherzona maior que a boca. Voltou à tona com a voz do velho anunciando a boa nova: “Cumádi, caçamo um calango tão grande que deu pra trazer um tucho pros meninos. Quem já almoçou acho que vai almoçar traveis, espie:” - Hômi de Deus! Bendito seja! Meninos úia qui nóis ganhemo! Ô homem bom! Benza Deus! Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo! Deus nosso Senhor te abençoe, ti dê saúde!... - e solfejando assim com um sorriso de poucos cacos de dentes podres, debulhou desafinadamente às lágrimas uma ladainha de hosanas ao ver o pedaço de teiú que lhe era majestosamente exibido.
__ E o piquititim? Aquele que nasceu isturdia, quêdi?
__ Não escapô, morreu antônti, o senhor não soube?
__ A notícia não chegou lá pro meu lado não.
__ Deus levô mais esse, inda amanhã ia interá um mês certo de nascido.
__ Morreu de que?- perguntou o rapaz, muito espantado com a frieza da mãe.
__ De precisão de cumê. E intera já dois que num escapole, o outro de treis meis e quatro ano, quando vi que tava muito ruim, fui consolá ele, disse benzinho você vai pro céu, daí morreu no meu colo, na derradeira hora perguntou-me se no céu tinha pão, e morreu... inda me chamou assim: mamãe, lá no céu tem pão?... - o rapaz mordeu o lábio a primeira vez, aturdido com aquilo tudo sentiu os primeiros sinais de fraqueza. - ostordia inda levei esse otro aqui que tá mais perrengue, pra consultar no posto do município. Esse desacoçoado tá duente da pele, onde já se viu isso? Doente do coro? Doutore falou que é pelagra, pega por falta de vitamina, de falta do que de cumê. O otro morreu com pneumania, mas que pegou por fraqueza. Verme, eles tudo tá cheio, cada lumbriga de sete cabeça de mais de metro, é uma vermaiada que só veno...
E bem triste, entibiado, o moço se perdeu sem saber o que fazer da vida que pensava ser uma coisa e é outra, reparou os meninos: todos uniformizavam em finos membros e barriga enorme. A pele ressecada e murcha por falta de gordura, era não mais que uma tênue membrana cobrindo os ossos que praticamente se viam. Os cabelos foscos pouco cresciam. Vira e mexe um tossia, amiúde, mas não paravam de tossir. Sem graça, tentou ser gentil, com esforço:
__ Bom, ao menos tem hospital, né?
__ Tem, mas não tem remédio. - o velho prognosticou rápido. - Doutor receita, mas o governo não põe remédio pros pobres lá no posto. É medonho. Aqui eles morre de fome mesmo, fíi, ispie o Cícero, vem cá Cícero. Ói cá o Cícero, é cego. Perdeu a vista de tanto passá fome.
O único menininho que não ria lhe foi mostrado, com seus olhos mortos, sem brilho, cinzas. Assim que não se viu em seus olhos, disfarçou e claudicou lentamente para longe de todo mundo, já saiu com o queixo tremendo. E, com os pêlos arrepiados, fingiu interessar-se por qualquer coisa do quintal, até conseguir controlar as lágrimas que brotavam. Recomposto, voltou tentando mudar para assunto mais alegre:
__ E escola? Onde eles estudar tem?
__ Tem sim!! O grupo Eduardo Lobo, a gente entra burro e sai bobo! - falou finalmente, um maiorzinho, barrigudinho e extrovertido, com muita desenvoltura e gestos debaixo de seu encardido boné do Chicago Bulls.
__ E o que você estuda lá na escola do Eduardo Lobo?
__ Produção de texto.
__ Sim, senhor... - nisto, Terta se intromete atrapalhando:
__ Mais é longe pra disgrama. Nenhum deles quase não vai lá não senhor, pra que andá esse tantão? Lá não tem nem água! Quanto mais merenda.
__ Por aqui ninguém vê televisão? A eletricidade não passa perto?
__ Uma vez eu vi. - respondeu o velho. - Mas saí de perto, minha vista doeu com aquela máquina do demo. Também uma vez dei uma volta de carro, pra nunca mais, Deus me livre, aquilo, o tale do fusca anda ligero demais, uma ligereza medonha! Pra que aquilo tudo? Humm... Hum-hum.
__ Ônti eu vi um carro! - disse o extrovertido barrigudinho, gritando. - Passolê lá na estrada, foi verde.
__ Televisão nunca vi, até tenho vontade de vê, pra sabê cumé. - disse Terta. - Eu escutava um rádio, mas estragô, disseram que era só pô pia nova. Eu só escutava a palavra de Deus, depois disligava, a hora do Brasil não entendia nada quelesômi falava.
__ Como é que chama esse baxim aqui com cabelo de manga chupada que produz texto e que até viu um carro verde ontem?
__ Esse? Esse é Leléu. Acode aqui Leléu!
__ Venha cá Leléu cara-de-chapéu. - Leléu aproximou até o pé da tosca muleta, agora subitamente tímido e cabisbaixo, tartamudo transfeito, enquanto que todos os outros menores estouravam em risinhos, por causa de tal brincadeira, mesmo tão sem gracinha. - Quantos anos você tem, Leléu? - vermelho de vergonha, com os olhos no chão, balbuciou um “Déis” que mal se ouviu. - Leléu, que negócio é esse aí no seu pescoço?
__ Nacença.
__ Mordida de cachorro?
__ Nacença!
__ É mesmo, é? Má rapaz... Quer dizer então que mordida de cachorro doido faz isso, puxa...
__ Nacença!!
__ Fala verdade, é mordida de cachorro.
__ Não!!! É nacença!
Terta agradou da visita divertida que seu vizinho trouxe, boa novidade.
__ E esse moço bunito, cumpádi Ico, o senhor achou?
__ Apessoado, num é? Esse um eu achei sem ter perdido.
__ Deus benza... Como sussedeu esta graça?
__ Tava vindo de aculá. Quando deu nele, a jumenta esbarrou, eu até soltei um assubêio com a visagem dele. Buli nele, tava vivo, catei e trúchi. E sabe a senhora de dondé quele é? - e, enquanto ela esperava toda cheia de olhos e orelhas, ele encheu a boca de orgulho: - de Sum Paulo! Hummm...
__ Hummmm... Hum-hum. Que achado cumpádi, que achado... e que bunito, ele é artista? - e como aquele fantástico achado lhe dava corda e ouvido: “a senhora é viúva, ou o marido está trabalhando?” - ela foi tecendo seu rosário de miséria: - Trabalhando? Quem, o Zacarias? Até parece... Sou viúva de marido vivo. Fais já seis meis que o Zacarias foi pra Sum Paulo pra ver se lá tá melhor, porque aqui não tava dano. E nóis passando penúria, eu tinha esperança que fosse mandar um dinheiro pra ajudar, mas até aqui, nem notícia dele mesmo mandou, num foi? Capais inté que tá por lá só budejando chumbeado tar qual fazia por aqui, num sábi? Por mor que aquele humm... Hum-hum purêli, se o mar fosse de cachaça ele queria ser pexe. Minha valença agora está na mão de Deus. Eu que tenho que trabalhar que nem cachorro pra nóis pudê cumê e não tá dano.
__ E a senhora trabalha?! De quê?
__ Minha profissão? É na enxada.
__ Nuuubarai!
__ No baralho não senhor, que eu não sou igual o inguiço do Zacarias, ô-xente, é na enxada memo, sempre foi, mas eu memo não tô prestando, tem lá um moço que dá gosto de vê, capina que é uma belezura, chega com uma enxada de treis libra e vai, ninguém o acompanha, mas eu, em antes de completar trinta e quatro, era a segunda, só perdia pra ele, mas não tem aparecido muito serviço, acho que não tenho futuro na enxada. Se pelo o menos o Derismar não fosse loco, pudia me ajudar. Ele já tem mais de vinte ano. - apontou o grandão de quase dois metro que ainda estava escorado na porta imóvel e mudo até agora. - o doutore falou que ele ficou louco de tanto almoçá e jantá só cacto.
__ Mas ele é louco? Não parece não.
__ Num parece, num é mesmo? Mais que é é, tem hora que ele fala umas besteiras aí, conversa sozinho e fica revoltado de repente. É meio assim, gira das idéias.
__ Bem que eu queria comer bem pra sará a cabeça e puder trabalhá, mas como eu não como bem daí não trabalho pra ganhá dinhero e daí pegá e pudê comprá comida e comer bem pra sará a cabeça e pudê trabaiá. - lá da porta onde sempre se manteve escorado, sem aluir um músculo, Derismar, assim que ouviu seu nome transformado em assunto, filosofou ligeiro enveredando-se por toda dialética, axiomas e sofismas aristotélicos que tinha direito. - Aí pega e fica essas vóis na minha cabeça imbriquitando eu, me enchendo as pacença, me deixando nervoso dus nervo.
Voltaram, e, em cima da jumenta, misturado nele vieram a raiva e a tristeza.
A minúscula choça de pau-a-pique ficava cada vez menor em suas retinas molhadas.
__ Mas também por que não têm só dois ou três filhos? Ou quatro ou cinco. Passariam menos fome.
__ Faz sentido sua idéia, sua cabeça é boa, daí é menos boca pra repartir a comida apurada.
__ Da minha vontade, não avera de ter esse horror de filhos. - Terta, súbito assim tão próxima, assustou-os, tornaram e depararam com ela bem ali. Tentando se afastar das crianças, aquela mãe os acompanhou ressabiada e silenciosa, e alcançou a conversa em que se intrometeu: - Os filho foi chegando e nóis, uá!! Aí no terceiro torci pra não vir mais, e foi foi, no quinto agora temos que torcer mesmo! Veio o sete, falei: agora tem que parar! Não é possível, e interou os onze. - em pensamento, o rapaz ria, não resistiu à graça ao imaginar de invenção sua o nome do anticoncepcional que de certo, ela usava: “Ginecotorcidex-B”, e B de boba. Ela calou um pouco, visivelmente angustiada, como se tivesse ainda mais algo a dizer, em particular: - Cumpádi, sabe a Maria Alvarina, que bem mal nem me completou ainda os treze ano? - com excesso de cuidado, cochichava de lado, como se fosse possível ser ouvida pelas crianças, que agrupadas em moita, observavam a distância o desempenho dos adultos: - Eu não sei o que faço cumpádi, ando mei agastada carecendo de consultar opinião cum o senhor que é mais sabido sobre isto qui tá me aperreando. Ostro dia passô um moço por aqui, e conversou só mais eu, dizendo que mim dava uma dinherama pra comprá ela, a Alvarina. – o rapaz, assombrado, quase cai da mula; e o velho, quis saber quem era esse cujo. - Não sei dereito dizer pru senhor não, tem a cabeleira assim abaixada, o rosto espalhado, fortão. Espiculei por aí, o Zaqueu e o Pai Daniel disse que sábi quem é. O Zaqueu contou-me né, que o ano passado vendeu duas filhas pro mesmo homem, tudo novinha, onze, doze ano, ele compra. Disse o Zaqueu que o dinheiro não é muito nada, logo se acabou, e já tão lá passando fome. Se arrelpendeu-se, amode que teve notícias das meninas, falaram pra ele que elas tão num lugar chamado, se me alembro, Cuiú-Cuiú, é um lugar de garimpo, no Pará. Diz que esse homem passa por essa região nossa insempre comprando as meninas pra levar pra lá pra servir pros garimpeiros, falaram que elas fica tudo presa numa cabana durante o dia, igual umas escravas! E de noite elas são forçadas a ir com os garimpeiros. Falam ainda que quando as polícia resolve soltá umas, não dá voz de prisão pros homens nenhum, e ainda proveitam pra abusar as meninas. Mas cumpádi, e se tudo isso for mentira? Esse povo fala demais. Agora eu não sei? E o dinheiro?
__ A cumádi não tem mesmo idéia no juízo. Desasna um pouco cumádi! Vigia. Vão fazê da menina, escrava, iguale fizeram comigo, a senhora sabe, tá doido que isso é medonho demais... Humm... Hum-hum. O correto é deixar ela encorpar mais, ficar bitelinha, espigadinha pra gudunhar marido. E fala presse cabra desviar sete léguas e meia do meu terreiro se num quiser obrar em pé feito boi.
Nisto, os meninos tentavam chegar perto, a curiosidade superando o medo que nutriam pela mãe, mais animados ficaram quando o rapaz, cativado por Leléu, acenou para seu novo amigo, chamando-o:
__ Leléu! Agora que eu vi, tem um negócio aí no seu pescoço, já reparou? Olha direito, parece que é mordida de cachorro louco.
__ Nacença!! Já faleiiiiii...
__ Agora vem cá, sério, conta aqui Leléu: que que você faz o dia inteiro por aí?
__ Mátu bizôrru e brinco. Dô estrelinha.
__ Duvido, dá uma aí então pra mim vê se você é o bão nisso mesmo.
Com a incrível destreza de quem treina o dia todo, tomou distância sem perder tempo, mui entediado apenas para atender aos pedidos do público, e num desdém de facilidade como se estivesse apenas andando ou respirando, alterou os pés e as mãozinhas na poeira, distribuindo no ar quantos e tantos saltos mortais bem quis; sem cansar, sem parar de girar, demonstrava que se quisesse, poderia passar assim dando estrelinha, por todo aquele belo dia de sol. A despeito da fome, era criança.
__ Pára de malinar, menino! Deixa de ser anarquento! É o dia interim nessa malinagem... Úuu...
__ Raia cuêli não, cumádi.
__ Inacreditável, com um técnico, ele iria às olimpíadas. - e pensou: “não sei o que o Brasil está perdendo, se uma medalha, ou uma criança.” - Ô Leléu, apesar desta sua agenda de compromissos inexoravelmente inadiáveis, alguma vez ouviu falar, assim por acaso, numa tal de xuxa? - sem tirar uns três dedos da boca, Leléu chocalhou a cabeça para os lados, em sinal de negação à resposta, borrando-se de vergonha, esperando com muito afinco o fim do interrogatório. - E a seleção? seleção brasileira, já ouviu falar? Sabe o que é? - e Leléu sacode de novo a cabeça para os lados, negando. - roberto carlos? - Leléu só sacudindo para os lados. - xotãozinho e xiroró? Sabe quem é sarney? - respondia sempre do mesmo jeito, também não conhecia. - disneilândia? coca-cola? macdônaldis? malúfi? vandâmi? rimem? jaspiom? - não, não, não, a tudo respondia com a cabecinha sem parar, ávido por ser liberado. Suave, o rapaz cingiu a mão pelo ombro do menino e o encostou docilmente em sua perna manca, daí, com um gesto solene, a todos os presentes, enfático, vaticinou: - Esse, é que é um cidadão feliz!