Agenda Latino-americana’2002, pág. 234-235

 

Quem é quem na América Latina ?

Por Wilma Jung

 

 

 

 

 

NINETH MONTENEGRO

No dia 18 de fevereiro de 1984, o esposo de Nineth Montenegro, Edgar Fernando Garcia, saiu de casa para dar alguns recados e não voltou mais... como outros 50.000 guatemaltecos detidos-desaparecidos. "Às três horas da madrugada entraram em casa homens fardados, armados com metralhadoras, revistaram tudo e levaram os documentos  de trabalho, de meu marido e os meus,  livros de Sociologia, de História, de Filosofia, que consideraram propaganda marxista. Revistaram toda a casa e me disseram que meu marido estava sendo submetido a um interrogatório; e que tinha sido machucado..." Desde então, Nineth dedicou sua vida a encontrar respostas para o caso dos desaparecidos na Guatemala. Durante dias intermináveis buscou pistas de seu marido. "No afã de encontrar entes queridos, fomos conhecendo outras mulheres na mesma condição. Depois de ir e vir, de albergues e hospitais, de receber insultos e grosserias, decidimos nos unir"...

Assim nasceu o Grupo de Apoio Mútuo GAM, formado em 1984 e que , ao grito de "vivos os levaram, vivos nós os queremos", saíram às ruas durante o tempo mais difícil da repressão, comandada pelo general golpista Oscar Humberto.

Mejía Víctores, foi quem governou de 1983 a 1986. Depois, de somente dez meses que  estava organizado o GAM, foram seqüestrados vários de seus dirigentes. Quando apareceram os corpos mostravam marcas do ódio e da maldade dos torturadores: sra. Rosário Godoy Cuevas, vice-presidente do GAM, foi seqüestrada com seu filho de dois anos; seus restos apresentavam sinais de bárbaras torturas, ao menino haviam lhe arrancado as unhas e os olhos...

Nineth Montenegro nasceu em São Marcos (Guatemala) em 1958. Iniciou sua atividade política quando estudante. "Naquela época era subversivo e perigoso até ter em casa livros de Gabriel Garcia Marquez. Durante a ditadura de Lucas Garcia (1978 a 1982) nossa luta foi extremamente difícil e arriscada. O ataque era frontal e direto, sem dúvida há algo que para mim foi muito importante naqueles anos".

Pouco tempo depois, a repressão e o terrorismo do Estado se generalizaram e afetaram igualmente crianças, mulheres e idosos. Desde 1962 a 1996, os militares contaram com o apoio da CIA dos "EEUU", como foi confirmado pelo general Heitor Gramajo, ministro da Defesa da Guatemala entre 1986 e 1990. Por outro lado, peritos militares israelitas " treinaram unidades especiais" para expulsar os índios de suas terras. Nada menos que 450 comunidades foram destruídas e incendiadas com naplam.

Apesar de tanto sofrimento e de inumeráveis ameaças de morte, Nineth Montenegro tomou a direção do Grupo de Apoio Mútuo (GAM) e conseguiu também terminar seus estudos de Direito na Universidade de São Carlos. No dia 24 de dezembro de 1996 foram assinados "os acordos de paz segura e duradoura", mas a realidade continua tingida de sangue: no dia 26 de abril de 1998, desconhecidos assassinaram o bispo João Gerardi, dois depois de ter apresentado o relatório  sobre os 36 anos de guerra interna, "Guatemala Nunca Mais", em que responsabilizava o exército como principal causa do terror. 

Em novembro de 1995, Nineth Montenegro foi eleita Deputada do Congresso da República, pelo partido da Frente Democrática Nova Guatemala (FDNG) e reeleita em 1999 pela partido Aliança Nova Nação (ANN). Sua principal luta foi conseguir que entrasse em vigência o Código dos Direitos da Criança e da Juventude, que entre outras reivindicações, permitia regularizar as adoções, pois existe uma imensa rede de adoções ilegais e venda de crianças guatemaltecas a estrangeiros. Este "negócio" possibilita a entrada de US$ 21 milhões de dólares anualmente. Uma advogada, esposa de um ex-presidente da Corte Suprema de Justiça, é apontada  por utilizar sua influência para "facilitar" os trâmites das adoções. As ameaças de morte continuam contra a deputada Montenegro, ela as "atribui" aos setores que  perderam seus privilégios econômicos como conseqüência da aplicação da Cartilha do Direitos da Criança. Entre outras iniciativas apresentadas no Congresso da República  encontra-se uma proposta de lei que propõe a criação do Programa Nacional de Ressarcimento e Assistência à Vítimas Diretas ou Indiretas das Violações dos Direitos Humanos. Por outro lado,  seu trabalho é fazer com que executem o cumprimento das recomendações da Comissão para o Esclarecimento Histórico e a criação da Fundação pela Paz e a Concórdia.

 

 

LUÍS PÉREZ AGUIRRE

O religioso jesuíta Luís Pérez Aguirre falecido na quinta-feira, 25 de janeiro de 2001, foi  atropelado por um ônibus, no balneário Costa Azul, quando estava andando de bicicleta.

Um amigo denunciou seu desaparecimento na delegacia e ali reconheceu a bicicleta do "Periquito", como todos o chamavam carinhosamente.

Pérez Aguirre nasceu em Montevidéu, Uruguai, no dia 22 de abril de 1941. Viveu no seio de uma família abastada, sendo o segundo dos oito filhos. Pôde realizar todos os seus desejos: escalar, navegar, voar... Mas, tudo isto não preencheu sua vida, "não encontrou a felicidade, essa coisa tão profunda".

Sua vocação sacerdotal nasceu no início dos anos 60 e a opção preferencial pelos pobres foi uma realidade permanente em sua vida: quando estudava teologia no Canadá, trabalhou como operário; em Montevidéu, colaborou com uma organização destinada à reintegração social das prostitutas e foi assessor da Associação das Meretrizes e Prostitutas do Uruguai (AMEPU) desde sua fundação em 1988. Seu nome está indissoluvelmente unido à Granja Hogar del a   Huella, destinada a acolher crianças e adolescentes órfãos, ali trabalhou e viveu ininterruptamente desde 1978.

Em 1973 os militares dão um grande golpe na democracia e à alma da sociedade uruguaia, assim começa uma longa noite que só termina em 1985. A perseguição de militantes de esquerda e líderes sociais, as torturas mais refinadas e os assassinatos, desaparecimentos forçados, são corriqueiros. Luís Pérez Aguirre foi catalogado como subversivo pelos militares, foi preso e torturado em 1974; a mobilização de seus irmãos jesuítas e a intervenção do núncio permitem que seja libertado. No final dos anos setenta, juntamente com um pequeno grupo, Pérez Aguirre publica "A Praça", a primeira publicação multidisciplinar que se converte num centro de intercâmbio de idéias e num verdadeiro fermento de retorno à democracia. Em princípios de 1981, fundou o Serviço de Paz e Justiça (SERPAJ), deste espaço defende e promove os Direitos Humanos. A resposta dos serviços de segurança foi brutal: chamadas telefônicas e cartas com ameaças, interrogatórios semanais, prisões e torturas. O ministro do interior e dois bispos qualificaram o SERJAJ de "organização comunista com ramificações internacionais". Em 1982, pelo fato de ter escrito um artigo intitulado "O guerreiro da Paz, foi processado pela justiça militar e acusado de "atacar  a moral das Forças Armadas".

No âmbito internacional, desde 1977colaborou em várias organizações não governamentais de defesa dos Direitos Humanos. Em 1987 obtem  prêmio da UNESCO de educação para a paz e em 1994 foi designado pelo secretário geral das Nações Unidas, perito independente na área dos Direitos Humanos. Também foi condecorado com a Ordem Nacional da Legião de Honra, concedido pelo governo francês.

Pérez Aguirre muitas vezes perseguido durante a ditadura militar, é também questionado na democracia. "O detonador" é um de seus livros, entre muitos que foram publicados: "A Igreja que não crê. Matérias pendentes para o terceiro milênio", cuja publicação em julho de 1993 provoca a censura por parte da Comissão da   Doutrina da Fé, da Conferência dos Bispos do Uruguai. Este livro questiona a Igreja sobre problemas cruciais não resolvidos: seu comportamento com relação aos pobres, com as mulheres e com o poder, sua concepção de sexualidade. Questionamentos feitos com a boa vontade de abrir o diálogo, pois, "quem ama a Igreja, não só se ocupa dela, mas  também se preocupa com ela. Todo tecido de sentimentos amorosos se faz com fios de preocupação e de cuidado".

Em março do ano 2000, ao assumir a presidência Jorge Battle, admitiu que houve desaparecidos e reconheceu o direito das famílias em saber o que aconteceu com eles. E é assim que alguns meses mais tarde, foi criada a Comissão para a Paz com a finalidade de esclarecer o destino dos Detidos - Desaparecidos; Pérez Aguirre integra esta comissão representando os familiares das vítimas: "Para poder perdoar, há que chegar à verdade. Alguém que espera que o pedido de perdão surja de quem ofendeu ou de quem provocou a injustiça. A vítima pode responder perdoando ou negando o perdão. Ninguém pode substituir a vítima . Por isso, nunca se pode pretender que uma lei de anistia perdoe, em nome da vítima, o agressor.